A Cabine como Refúgio e Terapia nos Céus

"Entrou na cabine, fechou a porta, tudo passa... isso aqui sempre foi uma terapia para mim."

Essa frase, dita com a serenidade de quem passou 47 anos cruzando os céus na era de ouro da aviação, resume o que o cockpit significava para o Comandante Sérgio Gomes. Longe de ser apenas um ambiente de trabalho de alta responsabilidade, a cabine de comando era o seu lugar de paz.

​No momento em que os motores ganhavam força e a aeronave deixava o solo, o mundo exterior silenciava. Ali, no comando de gigantes como o Boeing 777 ou na pilotagem raiz do DC-3, cada voo se tornava uma meditação em altitude. Entre nuvens, painéis e o horizonte infinito, Sérgio encontrou sua verdadeira vocação e transformou o céu em seu refúgio mais sagrado.

Como a paixão pela aviação nasceu em casa e se transformou em realidade na histórica base de Goiânia, aos 19 anos de idade.

​A aviação sempre esteve no meu DNA. Meu pai foi um dos comandantes mais antigos da Panair do Brasil, tendo voado na Segunda Guerra Mundial patrulhando a costa brasileira pela Aviação do Exército. Cresci cercado por essa atmosfera e, embora ele inicialmente não quisesse que eu seguisse o mesmo caminho, o destino já estava traçado. Minha formação começou no Aeroclube de Nova Iguaçu.

​Minha história na VARIG começou oficialmente no dia 10 de janeiro de 1966. Naquela época, a escola da companhia estava fechada, e fomos colocados direto na linha de voo. Fui enviado para São Paulo para fazer o curso do lendário DC3. Posso afirmar com toda a certeza: foi ali que aprendi a voar de verdade. O DC3 foi a minha grande escola.

​Com apenas 19 anos, fui designado para a base de Goiânia. Sob a tutela de comandantes experientes como o Comandante Kleine, enfrentei um treinamento pesado e fascinante. Decolávamos rotineiramente às 6h30 da manhã, cruzando os céus em direção a Brasília e seguindo depois pelas margens dos rios São Francisco, Araguaia, Xingu, Tocantins e outros trajetos até o nosso destino, depois de quase dez pousos em localidades que só o avião conseguia atingir. Assim iniciei a minha trajetória na aviação.

A Herança dos Céus e o Batismo no DC3

A Herança dos Céus começou quando era bem pequeno e ficava no colo do meu pai, no terraço de casa, enquanto ele estudava o mapa celestial, olhando para as estrelas no céu. Fazia parte do treinamento dele, como Comte da Panair, na época voando o famoso Constellation L-49, que fazia a rota do Rio de Laneiro para Lisboa, e que a travessia do Oceano Atlântico era feita baseada na navegação celestial, operada por um tripulante Navegador. Foram os desbravadores dessa linda fase da aviação de longo curso.

​O Começo de Tudo: Dos Manuais do Meu Pai ao Cockpit do DC3

Como a paixão pela aviação nasceu em casa e se transformou em realidade na histórica base de Goiânia, aos 19 anos de idade.

Depois da minha passagem pelo Avro — um avião pressurizado e muito forte —, chegou a hora de voar no lendário Electra II. Daquela época, guardo memórias fantásticas de companheirismo,

​Logo em seguida, migrei para o Boeing 727, que considero o grande xodó da minha carreira. O grupo do 727 não era apenas uma equipe de tripulantes; era um verdadeiro clube de amigos. Foi um período marcante, liderado pela filosofia moderna de operação trazida pelo Comandante Frank, que revolucionou a forma como utilizávamos os checklists e os procedimentos rápidos na cabine.

​Mas a magia do 727 também estava nos pernoites. Lembro-me com muita saudade de quando nos reuníamos em Recife, que funcionava como um verdadeiro ponto de encontro de tripulações. O pessoal que vinha do Sul trazia carnes especiais de Porto Alegre, despachava em Congonhas para chegar mais cedo, e organizávamos churrascos memoráveis no hotel. Havia uma mística e uma alegria coletiva na aviação daquele tempo que, infelizmente, não existem mais.

Do Tapete Mágico do Eletra ao 'Clube' do Boeing 727

Os bastidores de uma época em que a aviação comercial era sinônimo de profunda amizade, jantares em Recife e evolução técnica.

A Era dos Jatos e a Fraternidade do 727

O protótipo, matriculado N1881, realizou seu primeiro voo em 6 dezembro de 1957 | Lockheed Martin

Minha carreira seguiu o curso natural dos grandes equipamentos: voei o Boeing 707 (onde tive o orgulho de transportar os aviões Tucano da Embraer para o exterior e transportar a Seleção Brasileira durante a Copa da Espanha em 1982) e no Douglas DC10. Mas o ápice da engenharia e do conforto veio com o Boeing 747. Tive o privilégio de ser baseado em Los Angeles por três anos, cruzando o Pacífico rumo ao Japão.

​No comando do 747-400, vivi um dos momentos mais tensos e gratificantes da minha vida. No meu primeiro voo como Master do equipamento, decolando de Los Angeles para Narita, uma comissária de bordo (a Angélica) passou gravemente mal em pleno voo. Sem médicos a bordo, desci até a cabine de passageiros. Olhando nos olhos dela, percebi a gravidade da situação e perguntei: 'Quer que eu volte?'. Diante do seu olhar, não hesitei. Fiz meia volta com aquele gigante dos céus, alijei 70 toneladas de combustível para pousar de volta em Los Angeles. Ela foi direto para o hospital e sobreviveu. Esse é o verdadeiro espírito da aviação: cuidar dos seus.

​Por outro lado, o 747 também me reservou o voo mais triste da minha trajetória. Fui o responsável por pilotar o primeiro Jumbo da companhia, o VNA, em sua última viagem para ser devolvido em Whichita (USA). Ver aquela máquina maravilhosa, que foi nossa ferramenta de orgulho e trabalho por tantos anos, completamente vazia por dentro, sem paredes, foi um golpe profundo no coração. Mas o que fica são as milhares de horas de voo, o respeito das tripulações e a certeza de ter vivido a melhor época que os céus já viram.

As Asas do Boeing 747: O Escritório em Los Angeles e a Emoção nos Céus

As memórias no comando do 'Majestoso da VARIG', o salvamento de uma colega em pleno voo e a dolorosa despedida do VNA.

No Comando dos Gigantes e o Voo Mais Difícil

Como Tudo Começou

A aviação sempre foi o grande palco da vida do Sérgio. Mas, em meio a escalas, pernoites e rotinas de voo, o destino preparou algo que ele jamais imaginaria: um encontro que mudaria sua história pessoal para sempre.

A Construção de uma vida juntos.

Entre madrugadas de apresentação, retornos de voos internacionais e a rotina de uma profissão fascinante, construímos uma vida inteira de cumplicidade. Uma jornada sólida que traz, até hoje, a aviação comercial como o nosso eterno pano de fundo e o amor como o nosso norte absoluto.

AMOR NASCIDO NAS NUVENS

O cockpit não testemunhou apenas grandes voos, mas o início de uma linda história de amor.

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