A Cabine como Refúgio e Terapia nos Céus
"Entrou na cabine, fechou a porta, tudo passa... isso aqui sempre foi uma terapia para mim."
Essa frase, dita com a serenidade de quem passou 37 anos cruzando os céus na era de ouro da aviação, resume o que o cockpit significava para o Comandante Sérgio Gomes. Longe de ser apenas um ambiente de trabalho de alta responsabilidade, a cabine de comando era o seu lugar de paz.
No momento em que os motores ganhavam força e a aeronave deixava o solo, o mundo exterior silenciava. Ali, no comando de gigantes como o Boeing 777 ou na pilotagem raiz do DC-3, cada voo se tornava uma meditação em altitude. Entre nuvens, painéis e o horizonte infinito, o Comandante Sérgio encontrou sua verdadeira vocação e transformou o céu em seu refúgio mais sagrado.




Comandante Sérgio Gomes posa ao lado de sua tripulação e convidados na cabine para a comemoração do último voo do Comandante Bragato. Uma noite de festa, emoção e despedidas, com Sérgio sorrindo e todos desfrutando de bolos e taças de champanhe. Um registro precioso de companheirismo e legado nos céus.


Como a paixão pela aviação nasceu em casa e se transformou em realidade na histórica base de Goiânia, aos 19 anos de idade.
A aviação sempre esteve no meu DNA. Meu pai foi um dos comandantes mais antigos da Panair do Brasil, tendo voado na Segunda Guerra Mundial patrulhando a costa brasileira pela Aviação do Exército. Cresci cercado por essa atmosfera e, embora ele inicialmente não quisesse que eu seguisse o mesmo caminho, o destino já estava traçado. Minha formação começou no Aeroclube de Nova Iguaçu.
Minha história na VARIG começou oficialmente no dia 10 de janeiro de 1966. Naquela época, a escola da companhia estava fechada, e fomos colocados direto na linha de voo. Fui enviado para São Paulo para fazer o curso do lendário DC3. Posso afirmar com toda a certeza: foi ali que aprendi a voar de verdade. O DC3 foi a minha grande escola.
Com apenas 19 anos, fui designado para a base de Goiânia. Sob a tutela de comandantes experientes como o Comandante Klein, enfrentei um treinamento pesado e fascinante. Decolávamos rotineiramente às 6h30 da manhã, cruzando os céus em direção a Brasília, Rio de Janeiro, Paraguai e pelas margens do Rio São Francisco. Ali, no calor do cockpit e na precisão de cada pouso, o jovem carioca fincou suas raízes na era de ouro da aviação comercial.


A Herança dos Céus e o Batismo no DC3


O Começo de Tudo: Dos Manuais do Meu Pai ao Cockpit do DC3
Como a paixão pela aviação nasceu em casa e se transformou em realidade na histórica base de Goiânia, aos 19 anos de idade.
Depois da minha passagem pelo Avro — um avião pressurizado e muito forte —, chegou a hora de voar no lendário Electra II. Daquela época, guardo memórias fantásticas de companheirismo, como a histórica troca de motor que enfrentamos em Santarém com o genial mecânico Maurício Ferrares, que demonstrou um conhecimento técnico que ia muito além dos manuais.
Logo em seguida, migrei para o Boeing 727, que considero o grande xodó da minha carreira. O grupo do 727 não era apenas uma equipe de tripulantes; era um verdadeiro clube de amigos. Foi um período marcante, liderado pela filosofia moderna de operação trazida pelo Comandante Frank, que revolucionou a forma como utilizávamos os checklists e os procedimentos rápidos na cabine.
Mas a magia do 727 também estava nos pernoites. Lembro-me com muita saudade de quando nos reuníamos em Recife, que funcionava como um verdadeiro ponto de encontro de tripulações. O pessoal que vinha do Sul trazia carnes especiais de Porto Alegre, despachava em Congonhas para chegar mais cedo, e organizávamos churrascos memoráveis no hotel. Havia uma mística e uma alegria coletiva na aviação daquele tempo que, infelizmente, não existem mais.


Do Tapete Mágico do Eletra ao 'Clube' do Boeing 727


Os bastidores de uma época em que a aviação comercial era sinônimo de
profunda amizade, jantares em Recife e evolução técnica.
A Era dos Jatos e a Fraternidade do 727
O protótipo, matriculado N1881, realizou seu primeiro voo em 6 dezembro de 1957 | Lockheed Martin
Minha carreira seguiu o curso natural dos grandes equipamentos: voei no Boeing 707 (onde tive o orgulho de transportar os aviões Tucano da Embraer para o exterior e levar a Seleção Brasileira para a Copa da Espanha em 1982) e no Douglas DC10. Mas o ápice da engenharia e do conforto veio com o Boeing 747. Tive o privilégio de ser baseado em Los Angeles por três anos, cruzando o Pacífico rumo ao Japão, via Anchorage.
No comando do 747-400, vivi um dos momentos mais tensos e gratificantes da minha vida. No meu primeiro voo como Master do equipamento, decolando de Los Angeles para Narita, uma comissária de bordo (a Angélica) passou gravemente mal em pleno voo. Sem médicos a bordo, desci até a cabine de passageiros. Olhando nos olhos dela, percebi a gravidade da situação e perguntei: 'Quer que eu volte?'. Diante do seu olhar, não hesitei. Fiz meia volta com aquele gigante dos céus, alijei 70 toneladas de combustível sobre São Francisco e pousei para salvá-la. Ela foi direto para o hospital e sobreviveu. Esse é o verdadeiro espírito da aviação: cuidar dos seus.
Por outro lado, o 747 também me reservou o voo mais triste da minha trajetória. Fui o responsável por pilotar o primeiro Jumbo da companhia, o VNA, em sua última viagem para ser devolvido em Marana (Arizona). Ver aquela máquina maravilhosa, que foi nossa ferramenta de orgulho e trabalho por tantos anos, completamente vazia por dentro, sem paredes, foi um golpe profundo no coração. Mas o que fica são as milhares de horas de voo, o respeito das tripulações e a certeza de ter vivido a melhor época que os céus já viram.


As Asas do Boeing 747: O Escritório em Los Angeles e a Emoção nos Céus
As memórias no comando do 'Majestoso da VARIG', o salvamento de uma colega em pleno voo e a dolorosa despedida do VNA.
No Comando dos Gigantes e o Voo Mais Difícil
O protótipo, matriculado N1881, realizou seu primeiro voo em 6 dezembro de 1957 | Lockheed Martin




🌅 Como Tudo Começou: O Encontro em Recife
A aviação sempre foi o grande palco da vida do Sérgio. Mas, em meio a escalas, pernoites e rotinas de voo, o destino preparou algo que ele jamais imaginaria: um encontro que mudaria sua história pessoal para sempre. Quando nos conhecemos, nenhum dos dois vivia um momento simples. Ele atravessava a fase final de um casamento que já não existia na prática — um processo delicado, vivido com responsabilidade, respeito e o cuidado de um pai dedicado a duas filhas. Eu, por minha vez, vinha de minhas próprias dores e desilusões, tão fechada que até disse inicialmente que era casada, apenas para não me envolver com ninguém. É importante dizer: não foi um amor que nasceu de impulsos, e sim de dois corações cansados que se reconheceram. Sem culpa, sem pressa, sem intenção de ferir ninguém.
Nosso primeiro encontro aconteceu em Recife, num churrasco improvisado entre tripulações. Ele me chamou atenção de imediato pela postura, pela segurança, pela presença marcante — a ponto de eu achar, na hora, que ele fosse um coronel da Aeronáutica. No dia seguinte, na piscina do hotel, as risadas foram fáceis, leves, e algo profundo ficou gravado ali, mesmo que nenhum dos dois admitisse naquele momento.
🧭 O Destino em Linha de Voo: De Manaus a Fortaleza
O tempo passou, e o destino tratou de nos colocar no mesmo voo para Manaus. Quando assinei a folha de apresentação e vi o nome dele escalado como comandante, meu coração disparou. Mesmo assim, mantive o profissionalismo: estava com instrutora, concentrada, aprendendo o serviço de bordo e decidi não ir à cabine. Mas a presença dele ali, no comando, já dizia muito. Em Manaus, veio o primeiro encantamento real: ele me convidou para acompanhá-lo nas compras de discos. O Sérgio conhecia uma loja moderna, única, com equipamentos de som que só se encontravam em Miami. Aquele universo musical, tecnológico e cheio de novidades abriu uma janela para o mundo dele — e eu me encantei por completo.
Mas foi em um voo para Fortaleza que tudo se confirmou em definitivo. Sem precisar de grandes discursos ou declarações espalhafatosas, tivemos apenas a certeza silenciosa e mútua de que havia algo profundamente verdadeiro entre nós. Algo que não era aventura, nem distração passageira: era amor de verdade.
🏠 A Construção de uma Vida Juntos
Vieram os desafios naturais, os ajustes cotidianos e as decisões difíceis que a vida madura exige. Mas o que nasceu entre nós cresceu amparado no respeito, na coragem e na verdade de sentimentos. Até que, no ano de 1979, selamos de vez o nosso compromisso e começamos uma nova etapa: fomos morar juntos.
Dali em diante, entre madrugadas de apresentação, retornos de voos internacionais e a rotina de uma profissão fascinante, construímos uma vida inteira de cumplicidade. Uma jornada sólida que traz, até hoje, a aviação comercial como o nosso eterno pano de fundo e o amor como o nosso norte absoluto.


AMOR NASCIDO NAS NUVENS: A HISTÓRIA DO CASAL GOMES
O cockpit não testemunhou apenas grandes voos, mas o início de uma linda história de amor.
Conheça como o piloto e a comissária se encontraram nos bastidores da VARIG e uniram suas vidas para além do horizonte.
O protótipo, matriculado N1881, realizou seu primeiro voo em 6 dezembro de 1957 | Lockheed Martin
















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